Quando alguém decidir escrever a história das ocupações irregulares em Curitiba, um capítulo, com certeza, deve ser dedicado a Jairo Graminho de Oliveira, o seu Jairo, hoje com 80 anos. Ele é um dos mitos do movimento popular de habitação em Curitiba e vive há pouco mais de três décadas na região mais politizada dentre as 258 áreas informais da cidade – o gigantesco Bolsão Formosa, com cerca de 1,3 mil famílias cadastradas na Cohab.
Além da Vila Formosa, a área inclui o Uberlândia, São José, Canaã, Nina e a Vila Leão, nascida em torno de uma antiga fábrica do Matte Leão, cujo passado bucólico acabou logo que surgiu nas suas barbas a mais badalada invasão da história da cidade, a Ferrovila. Foi em 1991, mobilizou cinco mil famílias e tinha entre seus idealizadores o articulado Jairo.
Apesar de octogenário, não está cansado de guerra, inclusive com as áreas vizinhas do bolsão que se tornaram mais cordatas com as políticas da Cohab. Na opinião do veterano, a participação popular está em perigo. “A gente não consegue informação”, protesta, com um mapa pirateado dos conjuntos de apartamentos para onde serão transferidas parte das famílias que moram na beira do Formosa . O próprio Jairo vai perder 15 metros de fundo de sua casa por conta da recomposição do rio.
A crítica do líder vai principalmente para o tamanho dos apartamentos: têm 3,80 metros de frente e 43 metros quadrados. São destinados às famílias pequenas. O problema é que tem gente que vive irregularmente no Formosa há meio século, tempo em que investiu na moradia e agora vai ver tudo ir abaixo. “Por que demorou tanto para resolverem o problema?”, pergunta o líder, enquanto aponta as casas que vão virar caliça, a maioria delas de alvenaria. A política habitacional falhou – defendem-se os moradores à beira de um ataque de nervos. Eles correspondem a 15% do bolsão e passaram anos ouvindo a ladainha que o Formosa ia ser canalizado, por isso teriam permanecido no local esperando regularização.
Foi o caso do metalúrgico desempregado Isaías de Oliveira, 50 anos, morador de uma casa de 48 metros quadrados, rente com o rio. “Meu jogo de quarto não cabe no apartamento que vou receber, perto do Supermercado Muffato”, diz, enquanto mostra a moradia de excelente padrão. “ Dá um manjo. E agora, o que faço com 30 anos de investimentos? Querem colocar minha família para morar numa gaiola. Vamos fazer protesto. E vai ser coisa grande.” (JCF)
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