quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cidades ignoram dispositivos para viabilizar moradia em área segura

26/01/11 por raquelrolnik

No dia 17 deste mês, a Folha de São Paulo publicou em sua versão impressa uma interessante matéria, baseada em estudo encomendado pelo Ministério das Cidades, sobre a utilização dos instrumentos criados pelo Estatuto da Cidade para regular a ocupação do solo e viabilizar a produção de moradia de interesse social. Confira abaixo:
Cidades ignoram dispositivos para viabilizar moradia em área segura
Instrumentos criados pelo Estatuto da Cidade há 10 anos ainda não são utilizados, diz estudo
Em geral, eles permitem às prefeituras taxar de forma progressiva e até desapropriar imóveis que são subutilizados

CLAUDIA ANTUNESDO - RIO
A maioria dos municípios do país ignora os instrumentos criados há dez anos pelo Estatuto da Cidade para regular a ocupação do solo.
A lei federal, de 2001, cria dispositivos a serem usados pelas prefeituras para combater a especulação imobiliária e viabilizar moradias populares em áreas seguras.
Muitos imóveis atingidos pelos deslizamentos e cheias na região serrana do Rio ficavam em áreas de risco.
A conclusão é dos urbanistas que coordenaram estudo encomendado pelo Ministério das Cidades para avaliar 526 planos diretores no país -92 deles em SP e 28 no Rio.
No papel, até houve avanços, com a inclusão desses dispositivos nos planos diretores, mas menos de 20% deles preveem prazos para aprovar leis complementares que permitam a aplicação. Na maioria dos casos, essas leis não foram aprovadas.
“Existem raríssimos casos de aplicação efetiva dos instrumentos”, diz Orlando Alves dos Santos Jr., coordenador nacional do estudo.
Um dos instrumentos, as Zeis (Zonas Especiais de Interesse Social), é essencial para evitar que os mais pobres sejam empurrados para periferias urbanas e áreas de risco.
Ele reserva áreas no espaço urbano para casas populares e permite que famílias pobres morem perto do centro ou de locais estruturados.
Outros dispositivos ignorados são o Peuc (Parcelamento, Edificação ou Utilização Compulsórios) e o IPTU progressivo no tempo. Essas regras preveem taxações maiores com o passar do tempo e até a desapropriação de imóveis parados, à espera de valorização no mercado.
Anderson Kazuo Nakano, do Instituto Pólis, responsável pelo relatório paulista, aponta duas cidades em SP onde a aplicação das regras foi iniciada ou regulamentada: a capital e Santo André.
MINHA CASA, MINHA VIDA
O aquecimento imobiliário, com o aumento do crédito e o programa Minha Casa, Minha Vida, agravou a situação. Nas regiões metropolitanas, terras para moradias de famílias com renda de até três salários mínimos são raras e, em geral, na periferia.
Raquel Rolnik, relatora especial da ONU para o Direito à Moradia, afirma que prefeituras e Câmaras Municipais acabam não utilizando os dispositivos porque eles causam muito conflito com donos de imóveis e representantes do setor imobiliário.
Publicado em Urbanismo na mídia
Fonte: Blog da Raquel Rolnik

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Moradores de Fazenda Rio Grande bloqueiam avenida para protesto

RMC - 24/01/2011 13:36 Fernanda Trisotto

Avenida Paraguai está interditada por causa da queima de pneus. Manifestantes reclamam do descaso das autoridades em relação a uma valeta que inunda as casas do bairro a cada chuva

Moradores do bairro Nações I, em Fazenda Rio Grande, na região metropolitana de Curitiba, fazem um protesto na manhã desta segunda-feira (24) por causa dos constantes alagamentos que ocorrem no bairro. A Avenida Paraguai foi bloqueada e os cerca de 60 manifestantes queimam pneus no local. Essa é a segunda manifestação realizada pelos moradores, que já haviam interditado a avenida no domingo (23).
De acordo com Márcia da Rosa Soares, que mora na região há 16 anos, uma valeta passa em um local próximo as casas, que sempre são alagadas quando chove. “Esse problema já acontece há muito tempo e ninguém toma uma providência. A prefeitura veio e colocou uma placa dizendo que faria a canalização do rio na gestão anterior, mas nada foi feito até agora”, diz.
Os moradores, que receberam um caminhão carregado de pneus para a queima, pretendem ficar no local durante todo o dia.

fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1089812&tit=Moradores-de-Fazenda-Rio-Grande-bloqueiam-avenida-para-protesto

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Paraná não tem raio X de áreas de risco

Gazeta do Povo - 19/01/2011 por Paola Carriel

O Paraná ainda está no escuro quando o assunto é o número de pessoas que moram em áreas de risco no estado. Segundo a Com­­panhia de Habitação do Paraná (Cohapar), o governo do estado só terá uma ideia desse número no próximo mês, quando será concluído um estudo para a elaboração do Plano Estadual de Habitação de Interesse Social (Pehis). Atual­­mente o poder público ainda não sabe quantas famílias estão nessa situação, a localização dessas áreas e nem quais medidas poderiam ser tomadas para que os paranaenses não sofram com tragédias como a ocorrida na região serrana do Rio de Janeiro, onde mais de 700 pessoas morreram desde a semana passada. Também não existe um levantamento a respeito da quantidade de pessoas que foram reassentadas no estado e que deixaram de viver nesses locais.

Somente no ano passado a Cohapar iniciou um estudo, em parceria com o Instituto Para­­naense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), que vai avaliar a situação de cada município. Sem esse documento não é possível sequer apontar quais localidades e ações serão prioritárias. O presidente da Cohapar, Mounir Chaowiche, diz que o estado está atrasado em relação a outras unidades da Federação e até mesmo em comparação com alguns municípios brasileiros. A meta do novo governo é atender 100 mil famílias até 2014. “Pouco foi feito para relocar pessoas de áreas de risco no estado. É preciso fazer mais”, afirma. Além desse problema, pouco mais da metade dos municípios paranaenses possui defesa civil estruturada, como mostrou a edição de ontem daGazeta do Povo.

O desconhecimento está presente em todos os níveis da administração pública. O governo federal também reconhece que não há controle sobre as moradias irregulares no país e que elas são a regra e não a exceção. A estimativa do governo federal é que existam em todo o território nacional 500 áreas com risco de deslizamento e 300 com risco de inundação, atingindo cerca de 5 milhões de pessoas, mas o número pode ser bem maior, chegando a 40 milhões.


Região metropolitana

Em 2007, a Cohapar começou a executar projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, na região metropolitana de Curitiba. No total serão 2,4 mil famílias relocadas e 9,4 mil terão a situação regularizada com o título da propriedade e melhorias necessárias. Em Campo Magro, por exemplo, 181 famílias já receberam as novas moradias. Na próxima semana, 59 famílias de Colombo serão beneficiadas. Mas a quantidade de pessoas atendidas mostra que o problema cresce em uma proporção que o poder público ainda não é capaz de atingir.

Almirante Tamandaré é uma das cidades do Paraná mais expostas aos riscos. Além da possibilidade de alagamento, o município tem uma geografia com morros e encostas na maior parte do território. Há cerca de 30 áreas que podem sofrer deslizamentos. No ano passado, uma equipe do Centro de Apoio Científico a Desastres (Cenacid) da Univer­­sidade Federal do Paraná (UFPR) vistoriou o Jardim Bonfim, onde havia ocorrido um escorregamento, e apontou perigos iminentes. No local vivem cerca de 400 famílias.

Cerca de 3 mil famílias de Almirante Tamandaré estão em áreas de risco, segundo o mapeamento do Plano Municipal de Habitação, e a prefeitura admite que não dá conta de relocar todas. Há 117 locais irregulares listados, mas no orçamento de R$ 65 milhões anuais não cabe a construção de moradias. “Estamos buscando apoio no governo federal”, diz o secretário de Obras, Dilaor João Machado. Segundo ele, outro problema é a falta de espaço adequado para as remoções. Como o território é cortado por declives, não há pontos seguros. “Entre toda a região metropolitana temos particularidades bastante difíceis de solucionar”, argumenta.

A prefeitura se prepara para discutir hoje com o governo federal um projeto de macrodrenagem para evitar alagamentos. A obra custará R$ 30 milhões e será na região do rio Barigui. A ideia é conter as cheias com a construção de três lagoas. Além disso, o município entregou 304 apartamentos e planeja a construção de mais 44 unidades. “É uma ação ainda tímida em termos de resultado. Não há como resolver sem o governo federal”, diz Machado.


Beira de rio

Em Piraquara, cerca de mil famílias vivem na beira de rios e 500 estão em uma bifurcação dos rios Iraí e Palmital que sempre alaga. Para tentar combater o problema, a prefeitura criou uma lei e uma força ambiental municipal. Para construir, os moradores precisam de um documento chamado Guia Verde, que só é expedido após passar pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Segundo o secretário Gilmar Zachi Clavisso, há na Justiça 10 processos movidos pela prefeitura que pedem a demolição de residências irregulares. A regulação fundiária também é feita somente em regiões que não apresentam riscos.

Em Campo Largo 1,8 mil casas correm risco, segundo a Defesa Civil. Dessas, 40 estão em um morro que já apresenta rachaduras e movimentação de terra. Em Co­­lombo lotes criados há mais de uma década sem respeitar o zoneamento colocam a população em perigo. Os bairros Jardim das Flores, Santa Teresa e Jardim Carvalho são os mais afetados pelas chuvas.


Em Curitiba, ocupações cairão 86% em 5 anos

Em cinco anos, o número de pessoas vivendo em áreas de risco em Curitiba deverá ter uma redução de 86%, segundo a prefeitura. Em 2007, um levantamento mostrou que 13.136 mil famílias moravam na beira de rios e corriam risco de alagamento. O Plano Municipal de Habitação previu que elas fossem relocadas e verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, e recursos obtidos a partir de financiamentos internacionais permitiram que metade tivesse a construção de novas moradias garantida. Até 2012, restarão 1.828 domicílios que ainda vão precisar de verba para serem atendidos.

A diretora técnica da Compa­­nhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab), Teresa Oliveira, diz que as informações já existiam, mas estavam dispersas em várias secretarias. Com o auxílio do Instituto de Pesquisa Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) houve um levantamento completo.

Na capital, assim como no restante do estado, o maior problema são os alagamentos. Há ainda famílias que vivem sob linhas de alta tensão. Após o levantamento, a Cohab decidiu agir por bacias hidrográficas e separar os casos mais graves. A relocação levou em conta aspectos como a situação dos lotes, a ur­­banização e o adensamento populacional, e 43 vilas passam por in­­tervenções. O Rio Barigui teve prio­­ridade em função do volume, assim como os bairros Atuba, Ribeirão dos Padilhas e a Vila Audi-União.

O trabalho também pretende impedir novas ocupações. A capital conseguiu reduzir o ritmo de 149 por ano, durante a década de 80, para 6 nos últimos dez anos. Para isso, há um investimento de criação de parques e praças, replantio de árvores, ciclovias e recomposição de margens de rios.


Informações deviam estar em plano diretor

Apesar da falta de um levantamento sobre as moradias em áreas de risco no Paraná, boa parte dessas informações deveria estar nos planos diretores dos municípios. Essa ferramenta permite que sejam estabelecidas as diretrizes das cidades, traz orientações sobre a ocupação e o que pode ou não ser feito em determinada região. Com o Estatuto das Cidades, criado em 2001, todas as cidades com mais de 20 mil habitantes e as regiões metropolitanas precisam ter o documento. No Paraná, só recebe verba o gestor que tiver um plano.

O urbanista Clóvis Ultra­­mari diz que a lei de zoneamento, que integra os planos diretores, deve apresentar as áreas ocupáveis e não ocupáveis. Nem todos têm o detalhamento técnico, como estudos geológicos, que existe no mapeamento de risco, mas há informações. O problema é que há um nível grande de loteamentos clandestinos, invasões e descuido.

O procurador de justiça do Meio Ambiente, Saint-Clair Honorato, argumenta que existem verbas para a habitação, mas elas são poucos acessadas porque faltam equipes técnicas. “Ainda imperam os cargos em comissão. Então não há levantamentos técnicos, habilitação para recursos e pressão ao estado. A incapacidade técnica é o principal fator.” Ele afirma que as pessoas prejudicadas pelos desastres devem procurar a Justiça e pedir ressarcimento. O MP assume o papel de cobrança coletiva e tem uma ação contra Curitiba em função dos alagamentos que tramita há 4 anos. “As prefeituras reclamam das áreas de risco, mas não oferecem moradia digna e nem serviços essenciais.”

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A busca por uma vida digna

Gazeta do Povo, 05/01/11
A partir da segunda metade do século 20 a população brasileira começou a migrar do campo para as cidades, que não foram capazes de absorver o fluxo. O resultado foi o surgimento de espaços em que a população vive sem acesso a serviços básicos, como saneamento básico e energia elétrica. As condições de moradia não são dignas e geralmente os cidadãos precisam viver do sub-emprego.

A vida de Daniele Vinicius e sua família se encaixa neste contexto. Os pais de Ângela vieram do interior e o ciclo de pobreza foi se repetindo na Vila Torres. Apesar de não enfrentar desafios tão grandes como São Paulo e Rio de Janeiro, o Paraná ainda tem muito por fazer nesta área.

No Brasil, um a cada quatro brasileiros vive em favelas. Dados do Ipea mostram que um terço das moradias nacionais são inadequadas, seja por falta de água encanada ou esgotamento sanitário. Quase metade da população não tem tratamento sanitário adequado. Apesar disso, houve progresso na última década. Segundo a Agência das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), o índice de brasileiros vivendo em favelas caiu de 31% para 26% da população.

No Paraná os problemas se concentram nas grandes cidades. Curitiba tem cerca de 220 mil pessoas vivendo em 254 favelas. Nos próximos anos, obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, garantirão que quase 12 mil famílias paranaenses deixem as moradias irregulares em Piraquara, Campo Magro, Pinhais e Colombo.

Para o urbanista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná Carlos Hardt, o estado deu um grande passo quando passou a exigir que todos os municípios tivessem um plano diretor para acessar recursos. “Hoje o Paraná é o estado com maior porcentual de prefeituras que já elaboraram um plano diretor. Implantar as ações é o próximo passo.” Outro desafio é pensar a região metropolitana com uma gestão integrada.

O engenheiro civil e urbanista Ronaldo Guimarães Gouveia, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, lembra que há uma demanda nas grandes cidades por um transporte público eficiente e acessível. Segundo ele, é preciso um investimento maciço em transporte de alta capacidade, como o metrô. “Este será o grande lema da infra-estrutura na próxima década.”