A catadora de papel Ana Cristina de Oliveira Venâncio, 33 anos, bem poderia ser o personagem-símbolo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Curitiba. Ela morou na rua a maior parte de sua vida. Há cinco anos, junto com o companheiro, decidiu mudar de rumo e começou a pagar aluguel no Icaraí – uma das áreas de maior risco do Bolsão Audi-Jardim União, no Uberaba.
Mas não havia nada no bolsão que a amedrontasse – nem a pobreza nem a violência. Seus dramas pessoais pareciam maiores que os sociais. Logo que seu filho nasceu, há dois anos, Ana Cristina descobriu ter leucemia. Faz tratamento, passa bem, mas o diagnóstico da doença só veio a confirmar aquilo que já desconfiava desde criança: “Minha história daria em nada”, como diz. Só não ficou por isso mesmo porque a moça é tinhosa. Mesmo sem emprego fixo, conseguiu inscrição para uma casa popular no Moradias União Ferroviária, o que lhe pareceu um sinal de que a sorte fez a curva.
Hoje, enquanto recicla papel num barracão miserável em meio aos morros do Icaraí, pode se dar ao luxo de ver, lá de cima, homens e máquinas trabalhando na área de 400 mil metros quadrados de pura turfa onde, em breve, vai morar. “É a primeira casa de verdade que vou ter na vida. Eu sonhei com esse dia”, comenta a mulher de pouca fala, poucos dentes, nenhum dinheiro, mas decidida a fazer das tripas coração para ser uma com-teto.
A uns tantos quilômetros de onde Ana separa papel, a reportagem encontrou outra “filha do PAC” tão impressionante quanto ela, a dona de casa Terezinha da Luz Silva, 49 anos. Há pouco mais de um ano ela é moradora da Vila 23 de Agosto, no Ganchinho. Durante muito tempo, viveu no Capão Raso, um bairro de classe média, mas aos poucos se viu mais e mais empurrada para a periferia. Certa vez, com R$ 2,8 mil de uma herança nas mãos, desembarcou no 23 e comprou um barraco à beira do Ribeirão dos Padilhas – rio cujas margens são talhadas de palafitas, um tipo de habitação então rara em Curitiba e região.
“Gosto daqui. O problema é que qualquer chuvinha, já viu, né”, conta a mulher, enquanto passeia ao redor do casebre enfeitado com gaiolas de passarinhos. É só o que há de ajeitado ali. No mais, sobram encanamentos malfeitos e vizinhos de parede morando em puxados com uma tábua grudada na outra e um prego no meio. “Estou animada em ir para o conjunto. Pena que é um pombalzinho. Minha esperança é que não vão levar a gente para lá e nos esquecer”, avisa, referindo-se às Moradias Jandaia, uma área a cerca de dois quilômetros dali, num platô, com vista para uma mata de pinheiros.
Já os vizinhos de Terezinha não parecem tão animados. Cerca de 300 moradores do 23 de Agosto – precisamente os que vivem na zona de risco do ribeirão – vão ter de sair dali. A área invadida é de preservação ambiental. Mas andam achando as casas da Cohab muito pequenas. “Vai ter protesto. Muita gente não quer ir lá para cima. Se não ficar pronto antes da eleição, pior. Ninguém vota”, diz-se. “Eu acho ridículo depender da Cohab. É sair de uma favela para entrar em outra”, critica uma adolescente ao ver o carro da reportagem. A temperatura está alta no Padilhas.
O construtor Anísio Monteiro, 63 anos, mestre-de-obras do Moradias Jandaia, diz que fica pasmo diante de tanta lamúria. “Isso aqui é um espetáculo, é de primeira. A fundação das casas tem 21 estacas. E há como fazer um quartinho atrás e uma garagem na frente”, calcula, enquanto mostra o terreno de 21 X 6,90 m. “Já está faltando cimento na praça”, alerta.
Apesar do disse-me-disse, o local virou ponto de turístico do Ganchinho, como comprova o pedreiro Cláudio Dutra, 34 anos, morador das imediações. “Se pudesse, viria viver aqui hoje mesmo, sem piso nem forro nem nada. Mas não estou no PAC. O problema é que eles vão trazer a favela aqui para cima. Bota dois-três favelados juntos. O que você acha que acontece?”, pergunta, apontando uma questão que mobiliza tudo que é zona da cidade. Há quem jure que o PAC vá repetir a sina dos velhos programas habitacionais – artificiais, autoritários e incapazes de incluir uma mosca.
O líder comunitário da Vila União, Altair Góes, discorda. O PAC, garante, não vai virar uma esparrela porque os assentamentos são próximos das áreas em que as pessoas moravam, e com as quais mantêm vínculos, o que não acontecia nos idos de 60, quando se mandava a população favelizada para bem longe.
A situação da Vila União – onde Altair é saudado nas ruas –, contudo, é muito diferente da 23 de Agosto ou do Terra Santa, para citar duas áreas. O local, onde moram 3,5 mil famílias, é uma prova da variedade das ocupações irregulares. À maneira do que faz o MST, a invasão foi planejada pelos líderes da época. Os terrenos são padronizados, assim como a largura das ruas. O comércio é vivo na antiga Avenida do Progresso, com farmácia e supermercado. Não há becos ou nada que um bom asfalto e calçamento não resolva.
Outra vantagem do União é a própria pressão popular. Dia desses, a companhia de ônibus que faz a linha local – o Vila Reno – ameaçou cancelar o trajeto, incomodada com o comportamento dos jovens locais no coletivo. Altair chamou a moçada às falas. “As mães do União não vão atravessar a linha de trem para pegar ônibus”, avisa, diante daquele que é o maior drama da comunidade – o isolamento pelos trilhos. É a próxima briga. Essa história está apenas no primeiro capítulo. (JCF)
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