quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pequenas histórias do fim do mundo

Gazeta do Povo - Publicado em 06/02/2011

Nas últimas duas semanas, a reportagem da Gazeta do Povo percorreu CIC, Boqueirão, Santa Quitéria e Cajuru em busca de antigos moradores de ex-favelas – em especial a do Capanema, que em meados da década de 1970 abrigava 700 famílias. Os relatos, em resumo, são verdadeiros elogios à casa própria, antecedidos de crônicas bem brasileiras. Os antigos favelados da capital – a contar pelo recorte dessa matéria – são órfãos do campo, com passagem ligeira pela escola e longa jornada no trabalho informal. Não ter onde morar é conseqüência de abandonos em série.

Num dos depoimentos mais contundentes, o guarda municipal José Dias, 50 anos, fala do impacto ao chegar, em 1978, à ocupação conhecida como In­ferninho, no Santa Quitéria. “Eu nunca tinha visto nada igual. Barraco em cima de barraco.” A participação nas comunidades eclesiais de base o motivou a reagir, pressionando o poder público. Hoje, a vila está quase toda urbanizada. A casa de Dias é um grande sobrado, onde ele conta as pequenas vitórias da habitação na periferia de Curitiba.

A terra santa de Israel

O aposentado Israel Araújo Muniz, 59 anos, é capaz de desenhar o pedaço da favela do Capa­nema, onde morou na adolescência, depois de chegar do Norte com os seus. No “pedaço” dos Muniz havia uma centena de outras famílias. Os barracos eram feios, cobertos de papelão e, se bem se lembra, havia uma pressão da paróquia para que o gueto de favelados se desfizesse. A notícia de que seriam entregues casinhas na Vila Nossa Senhora da Luz animou o pai de Israel – o ambulante Antônio Muniz. Foram-se todos para o novo bairro, deixando para trás alguns benefícios, já que perto do Capa­nema havia de tudo. A mudança foi em 1966 – de uma vez para sempre. Israel encontrou seu canto, fez amizade com frei Miguel Botacin – mito da região – e se tornou funcionário da prefeitura. Quando casou, encontrou uma casa na Praça 10, onde permanece. “Ter mudado foi uma bênção.”

A favela do Afonsinho se foi

Quando Tereza de Jesus Amaro da Silva, hoje com 65 anos, se viu morando na “Favela do Afon­­­sinho” – uma das muitas do imenso Capanema –, achou que Deus lhe mandara um castigo. “Tinha muita bebedeira. Era um lugar horrível”, lembra a zeladora aposentada, sobre episódios da década de 1970. Quando lhe ofereceram um terreno com casa na Vila Camargo, no Cajuru, se mudou com os filhos para a Rua Arsênio de Azevedo. A rua, área empobrecida e de urbanização sofrível, abrigou parte das famílias retiradas do Capanema. Hoje, poucos permanecem lá. No começo, os Amaro e os outros eram “os favelados”. “Diziam que a gente ia roubar criança”, diverte-se. Aos poucos a origem dos novos vizinhos caiu no esquecimento. Quanto ao Capa­­­nema, sempre se lembra dele ao ver o Jardim Botânico. “Meu barraco era bem perto de onde hoje está a fonte.”

Abaixo-assinado no Meia Lua

A casa de Ernestina Alves Claro, 73 anos, fica na Meia Lua – nome de um conjunto do Boqueirão que recebeu, na década de 1970, moradores de várias favelas de Curitiba. Ela vivia no Patropi, Vila Hauer, e não ter um teto era só parte de suas tragédias: de família de agricultores pobres, Ernestina não foi à escola e ganhava a vida como doméstica, criando um filho sozinha. Foram dez anos de penúria, o bastante para dar adeus ao Patropi assim que pode. Ao chegar ao Boqueirão, surpresa, havia até abaixo-assinado para tirar os assentados de lá. Suportou mais essa e deu o troco. Em pouco tempo, ela se tornaria educadora social, função na qual se aposentou. A casa hoje é grande e azul. Sua dona não esconde o passado difícil de pobreza. É otimista, mas não acredita ser possível que todas as pessoas tenham uma casa. “Quem sabe minha história ajude alguém a se animar.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário