Gazeta do Povo - Publicado em 06/02/2011
Lóris Guesse, 62 anos, poderia frequentar o rol dos homens de pijamas, mas não há como. É aposentado da Companhia de Habitação (Cohab), onde atuou como diretor técnico, e do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Livre das obrigações com o relógio-ponto, passou a dividir sua larga experiência com alunos de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
As horas vagas também lhe serviram para montar um pequeno museu doméstico no armazém do bairro Água Verde, em Curitiba, que pertenceu a seu pai, Resenthal Guesse, o “Massa”, jogador do Britânia e do Palestra. O antigo “negócio”, como se dizia, foi fechado em 1973, mas sob a supervisão do herdeiro se mantém em dia com o passado. Esse capricho explica muita coisa.
Lóris cuida da história da habitação no estado da mesma maneira que zela pelo armazém do velho Massa. E parte da “culpa” é dos outros. Enquanto algumas administrações desastradas na Cohab puseram fim a documentos importantes sobre assentamentos, desfavelamentos e construção de conjuntos, Guesse salvou do dilúvio tudo o que pôde. Com o material que arquivou, responde questões em aberto. Uma delas é de que jeito a Curitiba de antanho lidava com as ocupações irregulares.
Seu depoimento merecia ser gravado para a posteridade. O arquiteto tem ilustração para falar sobre as ex-favelas do Guabirotuba, Lindoia, Guaíra, Hauer e, claro, do Capanema. Dessa, guarda mapas raros e lembranças dos guetos. De quebra, participou – no auge do Banco Nacional de Habitação, o BNH – dos mais bem-sucedidos projetos de moradia da capital, aqueles que ergueram conjuntos como o Augusta e o Caiuá, “verdadeiros bairros. Uma experiência exemplar” (leia ao lado).
Aos fatos. Curitiba começa a se deparar com o problema da habitação na década de 1940. Uma das primeiras ações é a construção do Abrigo Temporário do Pilarzinho, que funcionava à moda dos albergues. Havia uma bateria de quartos e áreas comuns e se acreditava que os sem-teto que por ali passassem logo ganhariam asas, usando o abrigo apenas como remédio nas horas do infortúnio.
Em meados da década de 1950, os curitibanos começam a se apavorar com o avanço da pobreza. Surgem o Capanema, parte da Vila Guaíra, Lindoia, Parolin e, a reboque, uma das áreas mais conhecidas dos anos 1960, o Inferninho do Santa Quitéria, hoje Vila Nossa Senhora da Paz, quase toda urbanizada. Àquela altura, o problema era grande demais para ser resolvido com quartinhos no Pilarzinho. A falência da monocultura do café – agravada a partir das geadas de 1963 – ajudou a atrair mais e mais empobrecidos para a capital. A população duplicou. Dos 300 mil habitantes passa-se, em 1970, a 600 mil. O BHN, em 1964, e a Cohab, a partir de 1965, apostam no modelo da transferência maciça dos pobres para distantes conjuntos habitacionais. O caso mais conhecido é o da Vila Nossa Senhora da Luz, uma pequena cidade de mais de 2 mil casas construídas no então “Barigui do Portão” para a gente do Guaíra e do Parolin, entre outros.
Pouco se estudou sobre a História das Favelas em outras fases, o que poderia responder qual o efeito da rejeição ao modelo “Nossa Senhora da Luz” nas demais comunidades. Supõe-se que as turmas do Capanema e de outras vilas recusavam-se a morar longe. “Somente quando a industrialização na região da CIC começou é que as pessoas passaram a ficar por lá”, ilustra Lóris, sugerindo que as políticas tiveram de se tornar mais agressivas. Depois do período que gerou as “ex-favelas”, como Capanema e Guabirotuba, vieram outros projetos, como o dos lotes urbanizados, o regime de mutirão, e também bizarrices.
Houve uma fase a que Lóris chama de “Sílvio Santos” – no final da década de 1970, quando surgem os conjuntos Oswaldo Cruz I e II. O morador ganhava uma chave da casa e saía a sua procura nos imensos e monótonos corredores de casas. “Não funcionou. Não havia relacionamento com as pessoas”, lembra-se, tendo na ponta da língua a primeira lição de urbanismo.
Lóris Guesse, 62 anos, poderia frequentar o rol dos homens de pijamas, mas não há como. É aposentado da Companhia de Habitação (Cohab), onde atuou como diretor técnico, e do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Livre das obrigações com o relógio-ponto, passou a dividir sua larga experiência com alunos de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
As horas vagas também lhe serviram para montar um pequeno museu doméstico no armazém do bairro Água Verde, em Curitiba, que pertenceu a seu pai, Resenthal Guesse, o “Massa”, jogador do Britânia e do Palestra. O antigo “negócio”, como se dizia, foi fechado em 1973, mas sob a supervisão do herdeiro se mantém em dia com o passado. Esse capricho explica muita coisa.
Lóris cuida da história da habitação no estado da mesma maneira que zela pelo armazém do velho Massa. E parte da “culpa” é dos outros. Enquanto algumas administrações desastradas na Cohab puseram fim a documentos importantes sobre assentamentos, desfavelamentos e construção de conjuntos, Guesse salvou do dilúvio tudo o que pôde. Com o material que arquivou, responde questões em aberto. Uma delas é de que jeito a Curitiba de antanho lidava com as ocupações irregulares.
Seu depoimento merecia ser gravado para a posteridade. O arquiteto tem ilustração para falar sobre as ex-favelas do Guabirotuba, Lindoia, Guaíra, Hauer e, claro, do Capanema. Dessa, guarda mapas raros e lembranças dos guetos. De quebra, participou – no auge do Banco Nacional de Habitação, o BNH – dos mais bem-sucedidos projetos de moradia da capital, aqueles que ergueram conjuntos como o Augusta e o Caiuá, “verdadeiros bairros. Uma experiência exemplar” (leia ao lado).
Aos fatos. Curitiba começa a se deparar com o problema da habitação na década de 1940. Uma das primeiras ações é a construção do Abrigo Temporário do Pilarzinho, que funcionava à moda dos albergues. Havia uma bateria de quartos e áreas comuns e se acreditava que os sem-teto que por ali passassem logo ganhariam asas, usando o abrigo apenas como remédio nas horas do infortúnio.
Em meados da década de 1950, os curitibanos começam a se apavorar com o avanço da pobreza. Surgem o Capanema, parte da Vila Guaíra, Lindoia, Parolin e, a reboque, uma das áreas mais conhecidas dos anos 1960, o Inferninho do Santa Quitéria, hoje Vila Nossa Senhora da Paz, quase toda urbanizada. Àquela altura, o problema era grande demais para ser resolvido com quartinhos no Pilarzinho. A falência da monocultura do café – agravada a partir das geadas de 1963 – ajudou a atrair mais e mais empobrecidos para a capital. A população duplicou. Dos 300 mil habitantes passa-se, em 1970, a 600 mil. O BHN, em 1964, e a Cohab, a partir de 1965, apostam no modelo da transferência maciça dos pobres para distantes conjuntos habitacionais. O caso mais conhecido é o da Vila Nossa Senhora da Luz, uma pequena cidade de mais de 2 mil casas construídas no então “Barigui do Portão” para a gente do Guaíra e do Parolin, entre outros.
Pouco se estudou sobre a História das Favelas em outras fases, o que poderia responder qual o efeito da rejeição ao modelo “Nossa Senhora da Luz” nas demais comunidades. Supõe-se que as turmas do Capanema e de outras vilas recusavam-se a morar longe. “Somente quando a industrialização na região da CIC começou é que as pessoas passaram a ficar por lá”, ilustra Lóris, sugerindo que as políticas tiveram de se tornar mais agressivas. Depois do período que gerou as “ex-favelas”, como Capanema e Guabirotuba, vieram outros projetos, como o dos lotes urbanizados, o regime de mutirão, e também bizarrices.
Houve uma fase a que Lóris chama de “Sílvio Santos” – no final da década de 1970, quando surgem os conjuntos Oswaldo Cruz I e II. O morador ganhava uma chave da casa e saía a sua procura nos imensos e monótonos corredores de casas. “Não funcionou. Não havia relacionamento com as pessoas”, lembra-se, tendo na ponta da língua a primeira lição de urbanismo.
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