quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Déficit de casas e de urbanidade

Gazeta do Povo - Publicado em 06/02/2011

A arquiteta e urbanista Cristina de Araújo Lima fala de favelas com intimidade. Parte de suas pesquisas na UFPR, onde leciona, foram desenvolvidas em áreas como a Vila Zumbi dos Palmares, em Colombo, e no populoso Guarituba, no município de Piraquara, bairro de 50 mil moradores e onde está boa parte dos mananciais que abastecem Curitiba.

Não é um detalhe geográfico. Para a pesquisadora, ocupações irregulares e políticas de habitação não são conceitos em separado, resolvidos por decreto num gabinete. Não lhe faltam exemplos de regularizações fundiárias próximas a rios e sem área de esgoto nas casas. Em miúdos, arruma-se teto para 2 mil pessoas e arruina-se a água que chega a outros 2 milhões.

Esse tipo de conta absurda é o bastante para que Cristina se permita uma brincadeira. O problema da habitação, diz, tem de ser tratado como uma epidemia. “É preciso uma espécie de Pastoral da Criança para o setor. Devíamos criar a Pastoral do Urbanismo. Precisamos ser mais agressivos dada a gravidade do problema”, sugere, de modo a chamar a atenção da massa sobre a encrenca em que a sociedade está se metendo ao subestimar densidade populacional e o uso de espaços inadequados. Exem­plifica com as recentes catástrofes – que dispensam apresentação.

Diante das regularizações escandalosas que já listou, o caso do antigo Capanema lhe parece contos para crianças dormir. Não havia perigos – era de direito que a população ficasse lá. “O parque poderia ser resolvido na beira do rio”. E para quem imagina uma geléia geral no lugar da estufa e dos jardins famosos, a estudiosa oferece uma resposta. Se houver políticas sociais complementares, reassentamentos e urbanizações de favelas podem se tornar muito mais promissoras.

A ida a campo da reportagem dá razão a Cristina. Por falta de políticas de acompanhamento, algumas zonas para onde foram transferidas antigas favelas hoje permanecem muito próximas do que foram um dia. “Sem acompanhamento as urbanizações são paliativos. Há lugares em que se gasta mais com drenagem de áreas impróprias do que em investimento nas pessoas”, protesta. “Temos carências que atravessam gerações. Programas habitacionais não podem ignorar isso...”

As conversações da urbanista – que propõe uma política de valores humanos em paralelo às políticas habitacionais – é de causar angulhos no setor. Ela não se importa. E bem lembra que no último Plano de De­­senvolvimento da Região Metropolitana de Curitiba está declarado que as áreas disponíveis são suficientes, descartando a alta soma de investimentos em área de risco. Sobraria, em tese, tempo e dinheiro para aplicar em programas de habitação e cidadania.

Não só. Cristina é dos simpatizantes por políticas sofisticadas de gestão urbana, como “aluguel social”, reciclagem de espaços e moradias populares em áreas tradicionais. “Não temos mais áreas como em outras décadas. Acabou o tempo da casa unifamiliar em um lote. Estamos adensando cada vez mais...” O que sobra dessa conta, sabe-se, é a necessidade de mais áreas públicas e de formar comunidades e grupos de bairro para cuidar do assunto, tudo em nome de cuidar dos poucos espaços disponíveis para viver.

“Temos déficit de urbanidade”, resume, apelando para os estatutos de convivência e para a promoção de agentes ambientais, animadores de praça, debatedores, sem os quais a conversa da moradia não passa de um frustrante amontoado de cifras e de nomes, como o finado Capanema.

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