segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Mais gente que em 11 estados

Região metropolitana de Curitiba chega a 3,3 milhões de habitantes e representa 31% da população do Paraná

Curitiba e região metropolitana ultrapassaram a marca de 3,3 milhões de habitantes, de acordo com as estatísticas populacionais divulgadas ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com a nova marca, as 26 cidades juntas superam o total po­­pulacional do Distrito Federal e de 11 estados brasileiros, localizados, em geral, nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste (veja box). A região também re­­­presenta 31% da população paranaense. Não só o crescimen­­to, mas a oferta de emprego nos setores da indústria e de serviços alavanca a troca de endereços de moradores de outros municípios, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo – as duas maiores cidades do país –, para Curitiba e região.
As novas estatísticas demográficas são baseadas em cálculos e na tendência de cada mu­nicípio. Não houve novo recenseamento. Para chegar aos números, os especialistas do IBGE consideraram as últimas datas em que foram a campo (Censo 2000 e contagem de 2007) e estimaram tendências. “O Censo nos dá subsídios para falar dos resultados e dar explicações. Nesses casos, porém, seguimos as tendências de cada cidade, com uma fórmula matemática padrão”, explica André Alves Gandolpho, técnico do IBGE. E os cálculos indicam população de quase 191,5 milhões de habitantes em todo o Brasil. O Paraná registra pouco mais de 5% desse total – ou 10,6 milhões.
O crescimento da região metropolitana já vem da última década do século passado e decorre, sobretudo, da migração. Uma busca contínua pela oportunidade de trabalho. “Quando existe a certeza do emprego, pode-se considerar o aumento da população por esse fator”, explica Luis Lopes Diniz Filho, professor de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Diniz Filho avalia uma tendência atual de procura por cidades de médio porte, principalmente do interior, causando um menor crescimento nos municípios com elevado índice habitacional, caso de Curitiba.
E a consequência disso é o fato de São José dos Pinhais e Colombo, dois municípios da região metropolitana entre as dez maiores cidades do Paraná (veja infográfico), tenderem a crescer mais rapidamente. As razões, contudo, são diferentes. “São José dos Pinhais atraiu investimento produtivo desde os anos 1990. Há uma oferta de empregos do próprio município”, esclarece Diniz Filho. “Em Colombo, a região que mais cresce é a do bairro Maracanã, que faz a fronteira com Curi­­tiba. E, por esse motivo, adquire mais características de cidade-dormitório”, analisa.
Essa característica de Colom­­bo e de outros municípios torna praticamente impossível avaliar a capital solitariamente, esquecendo das cidades fronteiriças. “A análise deve considerar Curitiba e seu entorno”, afirma Marisa Magalhães, demógrafa e pesquisadora do Instituto Para­­naense de Desenvolvi­­men­­to Eco­­­nômico e Social (Ipardes). “Não só a questão industrial, mas o emprego como um todo dever ser analisado de forma global nessa região”, acrescenta. Com ritmo de crescimento menor e oferta de serviços, as cidades da região metropolitana continuam a ser o polo mais atrativo do Paraná.
Esses municípios próximos são buscados pelo saturamento existente nas capitais. “Esse esgotamento não é territorial, porque existem áreas livres para construção. Ele ocorre no sentido econômico e social”, explica Marisa. Por esse fator, há tendência de que o crescimento das capitais seja cada vez mais lento. “De forma menos ágil do que Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, Curitiba já diminuiu seu ritmo de crescimento, apesar de colocar milhares de habitantes nas ruas por ano.”
Migrantes
Cláudio Marques Medeiros Rodrigues da Silva, coordenador de logística na Nokia/Siemens, vive em Curitiba há pouco mais de um ano. Afastou-se do agito carioca, mas ganhou em qualidade de vida. “Foi uma decisão conjunta com a minha namorada. Gostamos daqui depois de passar dois ou três dias”, conta. Além da tranquilidade, o bolso também pesou. “O custo de vida é menor em Curitiba. O que gastava lá, gasto aqui, mas com muito mais qualidade”, afirma. Na casa de Silva, encontra-se um casal carioca amigo, que veio a Curitiba com os mesmos interesses e busca um apartamento para viver.
O estudante de Engenharia Elétrica Robson Monteiro Evaristo também optou por Curitiba depois de passar um período na Inglaterra. “Minha namorada conhecia e sempre gostou da cidade”, relata. Antes da Europa, Evaristo vivia em Florianópolis. “Lá também há excelente qualidade de vida, mas a área de trabalho é bastante complicada”, afirma.

Municípios contestam números do IBGE
Os dados do IBGE são de extrema importância para os municípios. É a partir dessas estimativas que se determina quanto cada cidade receberá do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). E a lógica é bastante simples: uma maior população representa maiores recursos. E o contrário, nesse caso, também é verdadeiro. Quanto menor a população, menor será a verba. “Somos céticos em relação a esses números. É só uma estimativa do IBGE, que não traduz a realidade. Somente o Censo pode informar concretamente as populações”, afirma Gabriel Samaha, prefeito de Piraqura e vice-presidente da Associação dos Municípios do Paraná.
No caso de Piraquara, a diferença entre a população arrolada pelo prefeito e da informada pelo IBGE varia em mais de 10 mil habitantes, o que representa mais de 10% da população do município. Enquanto o prefeito estima quase 100 mil habitantes, as estatísticas populacionais do IBGE consideram 87 mil. Como não existe contraponto, Samaha considera que o IBGE adquire contornos de “dono da verdade”. “É claro que se trata de um instituto que inspira confiança, mas é falível. Por isso, quase 30 municípios paranaenses questionam os números”, diz.
E a única maneira de “corrigir” as divergências, segundo Sa­­maha, é o investimento nas comissões responsáveis pela próxima contagem populacional. “Esperamos que todos os prefeitos participem ativamente das comissões. E tenham um acompanhamento muito próximo para evitar os erros.”
Multidão
Confira a relação das 12 unidades da federação (11 estados e o Distrito Federal) que hoje já são superados pela região metropolitana de Curitiba em população, segundo o IBGE:
Região Norte
Rondonia - 1.503.928
Acre - 691.132
Roraima - 421.499
Amapá - 626.609
Tocantins - 1.292.051
Região Nordeste
Piauí - 3.145.325
Rio Grande do Norte - 3.137.541
Alagoas - 3.156.108
Sergipe - 2.019.679
Região Centro-Oeste
Mato Grosso do Sul - 2.360.498
Mato Grosso - 3.001.692
Distrito Federal - 2.606.885
GAZETA DO POVO - Publicado em 15/08/2009 Vinicius Boreki

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